Precisamos falar sobre Daniel Blake

eu daniel blake

Cena do banco de alimentos, uma das mais emocionantes

Vai ver é porque minha aposentadoria não tá tão longe. Ou porque a aposentadoria de meu pai e outras pessoas próximas se mostrou um desastre. Um que de concordar que o sistema previdenciário precisa ser discutido no Brasil. Um tanto de coração mole mesmo. Fato é que Eu, Daniel Blake, filme inglês do diretor Ken Loach, foi o que mais gostei de todos que vi nesse período pré e pós Oscar 2017 ( o filme foi ignorado pela Academia, mas venceu a Palma de Ouro).

Não há como passar incólume à saga de Dan atrás de seu auxílio desemprego numa Inglaterra também atingida por crise financeira. Seu vizinho negro, “China”, “importa” tênis caros atravessados da China por um funcionário da empresa fabricante para vendê-los pela metade do preço nas ruas. Será essa uma causa ou efeito da tal crise, esse aterrador monstro de nome curto e efeito devastador? Sessões do filme terminaram aos gritos de “Fora, Temer” em alguns locais no Brasil. Conhecemos o problema. A história do senhor carpinteiro que não pode trabalhar porque a médica não deixa, de sua amiga mãe solteira que não consegue emprego pra criar dignamente seus filhos, e a crueldade do sistema perante tudo isso, é não menos do que um soco no estômago.

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McCullin

“Suas fotografias são muito honestas, tão impetuosas e com tanto significado, não podemos correr o risco de você usar liberdade de expressão (…) Porque se importou em arriscar a sua vida pra dizer a verdade?” é o que pergunta em dado momento Harold Evans, editor chefe do Sunday Times por 14 anos, período em que foi o chefe do fotógrafo Don McCullin, que naquele momento deste excelente documentário disponivel Netflix (dica do Maurício Valladares), tinha sido preterido por outros jornalistas e não foi enviado para a Guerra das Malvinas. Isso no momento que o Clash entoa “This is England”. McCullin, como ele mesmo cita no filme, “viciado em guerras”, vai então para a Guerra do Líbano, onde mais uma vez tem contato com as atrocidades que o homem é capaz de cometer (e acaba sendo seu último trabalho do tipo, também motivado por encontrar crianças de dois anos, cegas, débeis e insanas internadas em condições desumanas em Beirute, em 1982).

A visão do soldado em choque, uma das premiadas imagens de Mc Cullin

A visão do soldado em choque, uma das premiadas imagens de Mc Cullin

As imagens captadas por McCullin serviram para que muitos americanos se colocassem contra a Guerra do Vietnã. As imagens incomodam, chocam, em muitos momentos do filme é preciso ter estômago forte.

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E hoje? Quem está documentando os horrores causados pelo Estado Islâmico? Não existem mais jornalistas corajosos como aquele britânico de origem humilde? Ninguém se choca mais com a guerra? No cenário atual seria impossível adentrar a realidade da guerra como fez Don? Assistir ao filme não vai responder a essas perguntas, mas vai mais uma vez nos fazer perguntar que porra de “humanidade” escrota é essa.

Amor e fúria

Sério, “Uma história de amor e fúria” é um dos melhores filmes nacionais de todos os tempos e merece todos os muitos prêmios que recebeu. Grande história, grande trilha sonora, uma baita produção brasileira sobre viver tomando na cabeça, sobre lutar por alguma coisa, sobre viver em combate, sobre atravessar os tempos brigando pelo que você acha certo. Nada de vencer, lutar apenas.

“Meus heróis não viraram estátua, morreram lutando contra aqueles que viraram”

Lutador

“E veio a porra do Cobain e fudeu com tudo”. Como me chamou a atenção essa passagem do ótimo The Wrestler, com o figura Mickey Rourke. Em dado momento ele, Randy The Jam, e Marisa Tomei, no papel de uma decadente stripper, começam a, doidões, cantarolar hits oitentistas total “wasp” (Guns, Def Leppard), aquelas músicas de arena, sexistas e tal, que marcaram a década de 80 na América. E ao citarem que Kurt Cobain “fudeu com tudo”, por causa do baixo-astral de suas letras e ainda, bem sabemos, iniciar uma nova ordem mundial, vejo o quanto a música pode ser marcante na vida gente: para eles a derrocada daquele estilo poser (em contraste total à vida de seus personagens), que sucumbiu ante à melancolia do Nirvana, foi motivo de tristeza e depressão. E eu aqui, pensando naquele show maravilhoso e histórico de Kurt, Dave e Krist no Rock’n’Rio em 93, que me fez mergulhar de cabeça no então underground americano, fascinado que fiquei por aquela barulheira. Minha música preferida até então? Sweet child o’ mine, vai vendo …